Toni Moles e Débora: 94 países, 200 mil quilômetros e uma Kawasaki Ninja resgatada do fundo do Caribe

 

Espanhol transformou uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636 em sua companheira de vida; após dois dias submersa a 36 metros de profundidade, a motocicleta passa por uma restauração para voltar às estradas

 

Como esta história chegou até nós!

 

Quando vi pela primeira vez a história de Toni Moles e Débora, confesso que fiquei surpresa e imediatamente curiosa. Uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636, 94 países, aproximadamente 200 mil quilômetros e até um naufrágio no Mar do Caribe. Eu precisava conhecer melhor quem estava por trás de uma aventura tão extraordinária.

 

Foi assim que decidi procurar Toni, na Espanha, e convidá-lo para contar sua trajetória ao público brasileiro. Mais do que os números impressionantes, queria compreender a relação construída entre ele e Débora, as experiências vividas pelo mundo e o que o fez lutar para resgatá-la do fundo do mar.

O resultado desse encontro você confere a seguir.

Por.: Vanessa Giannellini -  Assessora de Imprensa 

 

Uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636, ano 2004. Aproximadamente 200 mil quilômetros percorridos. Noventa e quatro países atravessados. Desertos, salares, parques nacionais, estradas remotas e diferentes culturas pelo mundo. No caminho, um naufrágio no Mar do Caribe e uma complexa operação de resgate a cerca de 36 metros de profundidade.

Os números impressionam, mas não são suficientes para explicar a relação entre o espanhol Toni Moles Salvador e Débora, nome dado à motocicleta que o acompanha em uma trajetória de descobertas, desafios e superação.

Aos 30 anos, Toni vive em Benicarló, na Espanha, cidade onde nasceu e começou a sonhar com motocicletas ainda durante a infância. Hoje, prepara-se para iniciar um novo capítulo dessa história: restaurar Débora e devolvê-la às estradas, com o objetivo de voltar a viajar em outubro de 2026.

 

Uma paixão que começou na infância

 

A relação de Toni com as motocicletas nasceu muito antes de ele imaginar que percorreria o mundo sobre duas rodas.

“Desde pequeno eu já tinha uma paixão muito grande pelas motos. Sempre que via uma, ficava olhando. Ia a todos os eventos relacionados ao motociclismo que podia e sempre sonhava em ter uma”, conta.

Sua primeira motocicleta foi uma Yamaha YZF-R125, que ele ainda conserva. Com ela, percorreu mais de 15 países europeus e descobriu que viajar sobre duas rodas poderia ser muito mais do que uma experiência ocasional.

O próximo passo seria justamente o modelo que admirava desde criança: a Kawasaki Ninja ZX-6R 636.

Toni tinha 19 anos quando conquistou a habilitação necessária para pilotar uma motocicleta daquela cilindrada. A decisão sobre qual modelo comprar já estava tomada havia muito tempo.

“Era a moto de que eu gostava desde pequeno. Sempre me atraíram as motocicletas de estrada e, visualmente, a Ninja 636 me parecia preciosa. Quando tive a possibilidade de comprá-la, não pensei muito. Fui buscá-la”, relembra.

Naquele momento, Toni não poderia imaginar que a motocicleta escolhida por paixão se transformaria em sua companheira de vida e de viagens.

 

Quando a Ninja se tornou Débora

 

Todas as motocicletas de Toni receberam nomes. Com a Ninja 636 não foi diferente.

Débora surgiu de “DeboraKilómetros”, nome utilizado por ele para compartilhar suas viagens e aventuras. À medida que as distâncias aumentavam, o nome ganhou significado e a Kawasaki deixou de ser apenas um veículo.

“Como comecei a percorrer tantos quilômetros com ela, o nome Débora surgiu naturalmente. Com o passar dos anos, deixou de ser simplesmente uma Kawasaki Ninja 636. Tornou-se minha companheira de viagem. Hoje, é impossível separar a história de Débora da minha”, afirma.

Também não existiu uma data específica para o nascimento do projeto de percorrer o mundo. A ideia foi construída estrada após estrada, viagem após viagem e fronteira após fronteira.

Em cada roteiro, Toni sentia vontade de ir um pouco mais longe, conhecer outro país e descobrir novos caminhos. Até perceber que viajar de motocicleta havia se transformado em sua maneira de viver.

“Quanto mais viajava, mais queria conhecer e mais longe queria chegar. Assim, quase sem perceber, nasceu o projeto de percorrer o mundo com Débora.”

A promessa estava feita: os dois dariam juntos a volta ao mundo.

 

Uma esportiva fora dos caminhos convencionais

 

Uma motocicleta esportiva pode não ser a escolha mais comum para uma expedição internacional, especialmente diante de terrenos irregulares e condições climáticas extremas. Para Toni, entretanto, uma viagem deve ser realizada com a motocicleta que desperta paixão em quem pilota.

“Cada pessoa precisa viajar com a moto que quer ou com a moto que tem. Não é obrigatório viajar com uma trail simplesmente porque é o que todo mundo faz”, defende.

Ele reconhece que outros modelos podem oferecer mais conforto em determinados terrenos. Ainda assim, nenhuma dificuldade diminui o prazer de viajar com uma motocicleta que continua admirando mesmo depois de tantos anos e quilômetros.

“Ainda que seja mais difícil ou que eu precise enfrentar terrenos para os quais ela não foi projetada, quando desço, olho para trás e vejo a moto, continuo encantado.”

Essa escolha também ajuda a explicar a singularidade dos registros feitos ao longo da jornada: uma Kawasaki Ninja em meio a desertos, salares, parques nacionais, estradas africanas e paisagens inesperadas.

“É a união de duas coisas que amo: minha moto e as paisagens do mundo.”

Ao lado de Débora, Toni já percorreu a África, a América do Sul e a Ásia, conhecendo culturas completamente diferentes e conduzindo uma motocicleta esportiva por locais onde poucas pessoas esperariam encontrar uma Ninja 636.

Para ele, não existe uma única experiência capaz de representar toda a jornada.

“Cada viagem, cada país e cada situação foram especiais à sua maneira. Não consigo escolher qual foi a melhor, porque todas fazem parte da nossa história.”

 

O naufrágio no Mar do Caribe

 

Em janeiro de 2025, Toni e Débora enfrentariam o maior desafio de sua trajetória.

O plano era partir da Colômbia em direção ao Panamá. Em vez de transportar a motocicleta por avião, Toni decidiu atravessar a região em uma embarcação que passava pelas ilhas do Darién e do Caribe, preservando o espírito de aventura da expedição.

Era janeiro, o mar estava agitado e, segundo ele, as condições da embarcação também não eram as melhores. Durante o trajeto, fortes ondas atingiram o barco, que acabou naufragando em pleno Tapón del Darién, uma das regiões mais remotas e desafiadoras do mundo.

Débora desapareceu no mar.

 

“Foi um momento muito duro. Senti muita culpa”, relembra Toni.

 

A perda representaria muito mais do que se despedir de uma motocicleta. O plano de Toni sempre foi guardar Débora em casa após completar a volta ao mundo, preservando-a como um tesouro e um registro físico de todas as experiências vividas.

Cada marca e cada adesivo carregavam uma história.

“Pensar que, depois de tantos milhares de quilômetros e tantas aventuras, eu poderia perdê-la no fundo do mar era como perder algo muito mais valioso do que uma moto.”

Para Toni, abandonar Débora nunca foi uma alternativa.

 

Dois dias a 36 metros de profundidade

 

Sem uma localização exata, coordenadas precisas ou referências seguras, encontrar a embarcação naufragada seria uma operação extremamente difícil.

Toni começou a procurar mergulhadores experientes em Capurganá, na Colômbia. Ao seu lado estava sua companheira, Louisiane, que ofereceu apoio emocional e participou ativamente da busca por uma solução.

“Ela me deu muita energia e me ajudou, mental e fisicamente, a encontrar os melhores mergulhadores e uma maneira de retirar Débora do mar”, conta.

Depois de negociações complexas na região e de um acordo para que a equipe pudesse acessar o barco, teve início a operação de resgate.

A Kawasaki permaneceu durante dois dias submersa, a aproximadamente 36 metros de profundidade, até ser localizada e retirada do fundo do Mar do Caribe.

“Eu tinha certeza de que, se fosse necessário, procuraríamos os melhores mergulhadores do mundo. Não iríamos embora da Colômbia sem ela.”

O resgate, contudo, representava apenas o começo de uma nova missão.

 

O caminho de volta para casa

 

A imersão prolongada em água salgada provocou danos severos. Praticamente toda a motocicleta precisou ser revisada, reparada ou substituída. O chassi, o carenado, as rodas e a balança traseira estão entre os componentes originais preservados.

O hodômetro também foi danificado durante o naufrágio. Por isso, embora a trajetória já tenha ultrapassado aproximadamente 200 mil quilômetros, não é possível confirmar a quilometragem exata.

Débora já está novamente na Espanha e passa por um cuidadoso processo de restauração. Ao contrário do que algumas publicações e conteúdos nas redes sociais chegaram a sugerir, seu motor ainda não voltou a funcionar.

Toni espera ouvir novamente o rugido da Ninja e devolvê-la às estradas em outubro de 2026.

“Ter Débora novamente em casa e saber que estamos trabalhando para devolvê-la à estrada faz com que eu espere muito por esse momento. Quando ela voltar a rugir, será algo muito difícil de explicar.”

Depois de tantos quilômetros e situações extremas, Toni destaca que sua ligação com a Kawasaki não é definida apenas pelos números ou pelo naufrágio.

“Débora e eu estamos conectados para sempre. Vivemos tantas coisas juntos que nossa relação vai muito além de uma moto.”

Segundo ele, a Ninja nunca o deixou sem assistência, inclusive em regiões remotas da África, parques nacionais, áreas com animais selvagens e territórios onde qualquer problema mecânico poderia se transformar em uma situação bastante delicada.

“Ela sempre esteve lá. Por isso, tenho certeza de que chegaremos juntos até o fim do mundo.”

 

O próximo capítulo

 

Quando a restauração estiver concluída, Toni pretende voltar à África para percorrer os países da costa atlântica do continente.

A próxima etapa também terá uma nova companheira de aventura. Louisiane agora participa das viagens e passa a integrar oficialmente a trajetória de Toni e Débora.

Depois da África, existe a possibilidade de a Kawasaki ser enviada novamente para a Ásia, embora essa parte do roteiro ainda não esteja definida.

Enquanto prepara o reencontro de Débora com as estradas, Toni deixa uma mensagem aos brasileiros apaixonados pela Kawasaki, pelo mototurismo e pelas grandes aventuras:

“Vão atrás dos seus sonhos. Não importa qual motocicleta você tenha, quais recursos estejam disponíveis ou qual seja a sua situação. Quando você realmente deseja alguma coisa, sobe na moto, dá a partida e começa a viagem. A partir daí, tudo começa a fluir.”

Para ele, uma aventura não depende dos equipamentos mais sofisticados, da motocicleta considerada ideal ou de uma estrutura perfeita.

“Se você realmente tem vontade e esse é o seu verdadeiro sonho, tudo é possível.”

A próxima partida de Débora ainda depende do trabalho de restauração, mas a promessa feita por Toni permanece intacta: os dois seguirão juntos até o fim do mundo.

 

Acompanhe os próximos quilômetros, desafios e destinos dessa aventura pelo Instagram: @toninja_636.

 

Entrevista de Toni para a Kawasaki na espanha: Youtube